Mais um acordo comigo

Tanto tempo faz que não apareço aqui, hem!? Desde o ano passado! (Affe! Piadinha sem graça e inevitável).

Sei que tinha dito que no próximo escreveria sobre o teatro, mas no meio daquela correria doida que eu estava, chegou a tão e tão linda carta da minha avó Lygia e esse texto aqui é sobre ela (ambiguidade proposital – hehehehehe).

Bom, quando pensei em fazer esse blog e decidi que chamar-se-ia (o autocorretor do Word que sugeriu essa conjugação, gente.)  “Contagie-se”, pensei em postar algumas  histórias inspiradoras, de pessoas que de alguma maneira pastaram até encontrar o seu caminho ideal. E claro que de primeira pensei na história dela… *-* Dessa lindeza linda que eu AMO NO MÁXIMO DO IMPOSSÍVEL e tenho o privilégio de chamar de vó!

Texto 4 (2)
Minha vozinha linda e eu*, na estreia da peça “O Pagador de Promessas”, no dia 9 de dezembro de 2014. *Tô caracterizada com meu personagem: Dedé Cospe-Rima (calma, no próximo texto juro que eu explico).

O nome dela é Lygia Peregrino Morales e ela nasceu em Marília – SP (assim como eu), no dia 10 de abril de 1929. Mãe do meu pai, morou conosco dos meus seis até os 21 anos. Direto eu ia dormir no quarto dela, conversávamos até altas horas e ela me contava inúmeras histórias. Inclusive a sua. E justamente por admirá-la DEMAIS é que eu queria a história dela aqui e pedi em uma carta que ela me escrevesse contando, para eu publicar.

Texto 4 (3)

Foram 15 laudas (de pura delícia!) e no final uma preocupação: “Em tempo, Bruna! Desculpe, mas não consegui fazer um texto ‘blogável’ (existe o termo?). Talvez ao contar a história escrevi como se fosse conversa. Pode ser que esteja muito longo. Ou misturado. Enfim, desculpe. Mas tenho certeza que você como expert em ‘nets e nats’ vai saber transcrever de um jeito mais legal e não tão tipo século passado!”

…hehehehe Que linda! Tá bom, vó. Então vamos começar logo? = )

“Casei-me em 1949. Tinha 20 anos completos, morávamos na fazenda São Jorge (do meu sogro) e tínhamos uma vida bastante rural. Estávamos a 24 km de Marília, numa estrada de terra que, muitas vezes, ficava intransitável quando chovia. A nossa comunicação era uma ‘jardineira’ que passava na estrada, vinda da cidade, às 16h. Recados, cartas e encomendas. O rádio era de bateria, a geladeira era de querosene, o chuveiro quente com aquecimento por serpentina, fogão de lenha, roupa lavada no tanque, luz de lampião, mas água corrente, banheiro e chuveiro! Fazia pão, matava porco (e utilizava a gordura), tinha horta, pomar, jardim, cavalos… E eu fui uma Amanoza até que razoável!

Minha primeira filha, a Regina, veio em 1950, a segunda, Marina, em 53 e por volta de 1954/55, nos mudamos para a fazenda São Bom Jesus, em Parapuã. Lá nasceu meu terceiro filho, Carlos, em 1957. E em 1958, chegou a luz elétrica e o asfalto! Meu quarto filho, o José Eduardo, nasceu em 59, o Roberto em 1961, a Cristina em 63 e o caçula, o Gilberto, em 1966, ano que nos mudamos para a cidade de Osvaldo Cruz.

Nesses 17 anos não ‘trabalhei fora’ – como se dizia. Fiquei cuidando dos filhos e da casa. Porém, quando estava grávida de dois meses do Gilberto, apareceu a oportunidade de dar algumas aulas como substituta no Grupo Escolar Getúlio Vargas, que era bem perto de casa. E lá lecionei até fim de novembro e tive a licença gestante.

Até então a vida corria dentro do considerado normal. Aí no final de 1968, lendo o jornal da cidade, deparei-me com a notícia de vestibular da Faculdade de Adamantina. E este foi o DIA D!

Creio já ter comentado com você sobre o sonho que sempre tivera – desde os tempos de ginásio, de fazer Faculdade de Letras e estudar Literatura e Latim. Era um sonho muito querido, mas… utópico. Não havia condições. Financeiras, principalmente. E como na época não foi possível partir para uma faculdade, meu pai, sábio e queridíssimo homem, me disse:

 – Filha, eu infelizmente não tenho condições de lhe proporcionar estudos fora daqui de Marília. Mas posso pagar para você o Curso Normal, no Colégio Sagrado Coração de Jesus.

Não havia em Marília nem ao menos o Curso Normal do Estado. E cursos superiores eram apenas em Campinas, ou São Paulo. E moças não estudavam fora, não havia condições de moradia para estudantes de baixo poder aquisitivo. Pois bem. O meu querido pai deu-me sim tudo o que poderia me ser dado e como foi valioso!

Fiz o Curso Normal e gostei muito. Fui muito feliz. E agora vou ter que colocar a modéstia um pouco de lado – e só para você eu conto – como fui sempre muito boa aluna, meu diploma de Professora Normalista teve ‘quase’ a nota máxima, que era 100. Minha nota foi 98. Muito bem, contei isso para poder contar a você como foram se abrindo os caminhos que eu, graças a Deus, consegui trilhar a partir de 1968.

Bom, após o meu DIA D, fiz um cursinho para o vestibular, em janeiro de 1969, em Adamantina. Eu ia de trem e as aulas eram das 18h às 24h. Não posso (e nem quero negar) que tive o apoio de meu marido e das duas filhas mais velhas, que ajudavam a cuidar dos outros filhos menores.

Em fevereiro prestei o vestibular e (xô modéstia!) passei em segundo lugar, curso de Letras. Fazia 20 anos que havia saído do Normal. Ainda neste mês soube de uma espécie de concurso para lecionar como substitua em Escolas Rurais de Emergência, no município de Osvaldo Cruz e inscrevi-me. Existiam duas formas de inscrição: pontuação por outras escolas e nota do diploma. Como eu não tinha pontuação, optei pela segunda e passei em primeiro lugar, podendo escolher a melhor escola. E assim garanti as condições financeiras para pagar a faculdade, a condução e melhorar um pouco o ordenado da moça que me ajudava em casa.

Começou uma nova fase da minha vida! E a rotina era mais ou menos assim: lecionava na Escola Rural pela manhã ou à tarde, de noite ia para a faculdade e, aos sábados, das 8h às 14h, também tinha aulas na faculdade.

Se as escolas fossem no período matutino, eu levantava entre às 5h / 5h30, pegava um ônibus ou carona e voltava para a casa por volta das 13h. Agora se as aulas fossem no período vespertino, levantava às 7h30, pegava ônibus ou carona 11h30, voltava para casa às 17h e escolhia entre tomar banho ou jantar, para correr para a faculdade. E se eu estivesse sem empregada, tinha que levantar às 4h para deixar o almoço pronto.

Conseguia estudar e fazer os trabalhos da faculdade, no máximo, uma ou duas horas por dia e depois da meia-noite, até quando fosse possível… No mais, você pode imaginar: filhos crianças, adolescentes e vai, e vai, e vai…

E assim seguiram os anos, de 1969 até 1973, quando foi minha formatura. Depois de formada, a correria continuava, já que eu dava aula nos três períodos. Em casa, os filhos crescendo, as moças casando, os netos nascendo. A luta!

Prestei concursos para me efetivar e em 14 de abril de 1977 (dia muito importante!) saiu no Diário Oficial a minha aprovação no concurso de Letras. Fiquei muito feliz! Foi muita emoção! Por outro lado, neste mesmo ano, meu casamento que já vinha estremecendo, começou a degringolar de vez. E como você pode imaginar, foi um período difícil.

No dia 17 de julho de 1977 tomei posse como professora efetiva da cadeira de Português da Escola Estadual Benjamim Constant, em Osvaldo Cruz, e lá lecionei por 20 anos. Aposentei-me em 13 de março de 1993.

E aí está, querida neta Bruna, a minha história – ou parte dela. Também vale acrescentar que de 1978 a 1980 eu tive a oportunidade de fazer a Faculdade de Pedagogia, com especialização em Administração, Orientação e Supervisão Pedagógica. Claro que a rotina voltou a ficar complicada, já que tinha que viajar para Adamantina toda noite e aos sábados, além de cuidar da casa, dos filhos, trabalhos da faculdade, preparação de aulas, correção de trabalhos, etc, etc, etc…! E como você mesma sabe, o ‘adicional’ de ser divorciada em 1978!!

Mas tudo bem. Valeu a pena! E com esse curso de Pedagogia eu tive a oportunidade de sempre complementar minha carga horária. Até mesmo fui professora de um projeto chamado Programa de Informação Profissional (PIS), que servia para orientar os alunos de oitava série nas escolhas das profissões. (Francamente, nunca compreendi o porquê desse projeto ter sido suspenso… Sabe-se lá! Coisas desses ‘tais’ dirigentes…)

Foram anos de luta, mas de grandes alegrias, compensações, aprendizado. Foi tempo de crescimento, oportunidade de conviver com pessoas muito especiais, conhecer também muitas coisas e aprender a conviver. Ah, Bruna, tanta coisa boa! E sempre, mas sempre mesmo, dei graças a Deus por ter conseguido meu sonho: estudar, fazer faculdade e ser professora de português e literatura.”

 

Não sei dizer quando eu soube de toda a história da minha vó. Como eu disse, sempre conversávamos MUITO. Muito mesmo. O que eu sei é que quando eu penso que está difícil, procuro sempre me lembrar da rotina que ela teve para finalmente conseguir vivenciar seu sonho. E, principalmente, da garra e determinação com que ela encara a vida.

E sobre as dificuldades, ela me disse ainda na carta:

“… Bem, vamos lá. Graças a Deus, o tempo passou. E ele passa… Passa mesmo. Às vezes parece que não dá mais… Mas… Passou. Só para lembrar: a minha sogra, Dona Constantina, tinha a sua sabedoria, a experiência de vida e de idade e costumava dizer: ‘Nada como o tempo. O tempo é criatura de Deus. O tempo passa e com ele, os bens e os males também passam’. E nós sabemos que é verdade”.

Te amo, vó.

(E, olha, sem querer, acho que esse foi um belo texto de início de ano, hem?)

Seja bem-vindo, 2015!

* Oração ao tempo.

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2 comentários

  1. Oi Bruna!!! Muito agitada essa tua fase até sábado passado pós Esquadrão. A vida é uma doideira mesmo, né? Até sábado nem imaginava que a Bruna existia e agora parece que você sempre fez parte da vida da gente.
    Pelo que pude perceber em meio as atribulações daquela fase “ruim” e sem chocolate, enquanto você se desgastava emocionalmente, Deus agia e te fortaleceu e te devolveu em bênçãos todas as atribulações.
    Bruna, obrigado por ter me convidado para conhecer teu blog. Adorei conhecer um pouco mais da Bruna.
    Um grande beijo e pode ter certeza que já me contagiei.
    P, s. Também sou tarado por chocolate. Compro e escondo de mim mesmo, sr não. ..

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