Por que comemorar um ano sem o Mirena?

eu pulo parnaioca
Parnaioca – Ilha Grande, setembro/2017

Menstruei com 11 anos, comecei a tomar pílula com 15 e por volta dos 20, eu sentia meu corpo pesado, tinha dores de cabeça e percebi que minha libido estava lá no pé. Fiz uma consulta médica e troquei o remédio. Resultado: manchas no rosto. Mas, né? Isso é “normal” (insira aqui aquele emoticon dos olhos virados). Até cheguei a usar algumas cartelas, mas acabei voltando para a marca de costume. Segue o baile, com o plus de consultas no dermato e cremes com ácidos para clarear a pele.

Tempos depois, de novo eu voltei a refletir sobre este tipo de contracepção – ainda mais quando apareciam casos de trombose. Só que mesmo assim, não passava pela minha cabeça que a responsabilidade poderia não ser exclusivamente minha. Inclusive minha postura ao conversar com os namorados era esta, que cabia a mim, afinal de contas, temos as pílulas anticoncepcionais tão maravilhosas, não é mesmo? Elas nos deram a liberdade sexual! Ó que maravilha! Ãhnrram… E além disso, as ginecos nunca me falavam outra coisa se não píulula, pílula, pílula… E quando eu me atrevia a perguntar sobre outras possibilidades era mais ou menos assim:

– Bruna, tem o DIU, mas você não pode, o diafragma, que não é seguro, e a camisinha, que homem não gosta. Se não quer engravidar, é pílula. Mas é de baixa dosagem, menina! Não tem problema algum! Pare de se preocupar.
– Mas meus ovários e útero estão ficando menores, atrofiando…
– É assim mesmo, porque não há os estímulos dos hormônios. Mas não se preocupe. Você não terá problema pra engravidar, não importa por quanto tempo tome.
– Tá… Mas sabe, li que a pílula atrapalha no ganho de musculatura…
– Ah, Bruna! Quer ser fisiculturista agora, é?

Não, nunca rolou uma conversa sobre conhecer o próprio corpo e conversar com o parceiro sobre corresponsabilidade na concepção. Mas, olha, tudo bem, né, eram outros tempos. (Falou a velha, que fará 31 daqui uns dias.hehehehe)

Com uns 25 anos, eu descobri que existia o DIU Mirena, o qual me parecia mais seguro que o de cobre (hormônio, sempre ele), e resolvi que queria colocar. Porém minha médica falava que não, que não cabia no meu útero, que eu ainda não tinha engravidado, que não era bom, etc, etc. Tá. Ok.

Por fim que quando mudei para São Paulo, em 2013, consegui na segunda tentativa achar uma médica que topasse colocar o Mirena em mim e fiquei felizona! Eu lembrava da experiência trágica da minha irmã de tentar colocar sem sucesso, e da de uma amiga que internou para botar o Mirena com anestesia, mas segundo essa médica, estes dois casos não representavam minha realidade, já que os exames mostraram que meu útero estava em posição e tamanho compatíveis, e ainda me garantiu que conseguiria colocar no consultório mesmo. “Só dará um leve desconforto e logo passará!”. E também o plano de saúde (Porto Seguro) não cobriria uma internação… Pronto. Decidido. De mais a mais, eu estava era realmente bem animada de finalmente me livrar da pílula.

Essa era a expectativa. A realidade foi achar que eu iria morrer de tanta dor, e olha que sou bem de boa neste departamento. Não sei descrever. Sério. Zonza, lembro de um momento meio que levantar a cabeça e pedir pra ela parar. “Calma, Bruna. Respira que já tá acabando… Só mais um pouco”, respondeu a doutora, de uma maneira bemmmm suave, tentando me acalmar. Não sei se foram segundos ou minutos. Juro. Só sei que foi uma dor aguda, pontual e desesperadora, que passou totalmente quando ela parou de fazer o que ela estava fazendo. Depois ficou a cólica e o mal-estar. Ainda bem que o então namorado tinha ido junto e me acompanhou na volta pra casa.

Os dias foram passando e eu me sentia muito bem, muito bem mesmo. Era infinitamente melhor que a pílula, eu não sentia nada estranho. E era incrível a ideia de só precisar me preocupar com “isso” dali cinco anos.

É.

Coloquei o Mirena em agosto de 2013 e dois anos depois eu comecei uma jornada que me revirou completamente. Fui mudando minhas escolhas, refletindo e me abrindo pra um tanto de coisa. Em 2016 passei a ser ovolactovegetariana e a olhar para a minha saúde de uma maneira mais lúcida e responsável. Daí para ampliar essa ideia e pensar que eu também poderia tomar as rédeas do meu próprio corpo e assumir a responsabilidade sobre a minha fertilidade, foi um pulo. Outra coisa bem interessante foi que comecei a reparar que meu corpo estava dando sinais de confusão: às vezes sentia dores como de ovulação, umas cólicas meio diferentes, às vezes ficava meses sem qualquer sinal de menstruação, de repente aparecia alguma coisa… Sei lá. Comecei a desconfiar da “maravilha” dessa contracepção, a me preocupar mesmo.

Nesse bolo todo, chegou também com mais intensidade as reflexões sobre o sagrado feminino, a importância de se conhecer e saber como você funciona. Em abril, fiz o Vipassana e conheci a Morena do Danza Medicina, conversamos, falamos sobre a Mandala da Lua e aí a coisa começou a pegar mesmo pro lado do Mirena!

Aquela mandala maravilhosa queimava na minha mão. Eu queria usá-la! Mas como ser fidedigna se eu tinha dentro de mim um pedaço de plástico que liberava hormônio esporadicamente, não deixando meu sistema fluir como deveria?!

Fui conhecendo mulheres que já tinham se libertado disso, fui lendo muita coisa até que, ao voltar para o centro de meditação Vipassana em junho, veio muito forte a mensagem: “Tire o DIU. Chega”. E isso aconteceu várias vezes enquanto estive lá meditando. É, foi assim que eu decidi.

Pra engrossar o caldo dessa decisão, me ocorreu que eu iria fazer 30 e que praticamente durante toda a minha vida fértil, eu enganava meu corpo, nunca tinha dado a chance dele trabalhar por conta. “Mas e as cólicas terríveis?!” Bora aprender o porquê disso e como você pode se acolher nesses momentos? Tá certo, combinado. Além do que eu estava solteira e só usava preservativo mesmo, oras! Então deixa de medo, de neura e FIM, dona Bruna.

Ah! E teve também um outro lance: eu queria muito começar a usar o coletor menstrual. Sim, eu sentia falta da menstruação. Muita. Eu sentia que eu precisava me conectar com a minha Lua.

Bom, o que seguiu após a decisão foi uma saga pavorosa para tentar tirar o abençoado… E isso porque a tal “cordinha” que fica pra fora do útero, pra facilitar a retirada, tinha entrado, isto é, ele só sairia de lá com um procedimento chamado histeroscopia. Caraca!!! Eu não tinha sido orientada que isso poderia acontecer, sabe?? Eu não sabia!

Aí a grande dificuldade estava em encontrar um médico na Amil que fizesse isso (quando me tornei autônoma, em 2015, passei a pagar o plano de saúde nacional da Amil). Foi uma novela, passei por vááários médicos, ouvia sermão do tipo “Vai tirar pra quê?”, “Tá querendo engravidar, é?”, “Tanto sacrifício pra colocar pra nada!?” !!!!!!!!! Não, ninguém conversava ou tinha uma abordagem diferente. Tampouco se cogitava a ideia de me respeitar e acreditar que eu posso conhecer meu próprio corpo. Sim, todos partiam do princípio que eu não sabia o que estava fazendo, que eu não tinha conhecimento suficiente pra isso.

Olha, fiquei tão P da vida, chateada de pensar que não conseguiria tirar aquele troço de mim, tão enraivada com a papagaiada que é um plano de saúde que se diz nacional, mas que na verdade não entende quando você diz que está em viagem… Que ooolhaaa!!! Pensava na relação Mensalidades Pagas X Real Uso e no tanto que eu teria que gastar agora pra fazer o tal procedimento. E, principalmente, a minha gineco maravilhosa, feminista, humanizada, naturalista, etc, que descobri num momento de descrença total no início daquele ano, era no particular!! OU SEJA?? De que adiantava pagar plano???? Nada. Cancelei. (Isso foi uma libertação tremenda pra mim, quem quiser entender mais sobre, só me perguntar).

Enfim.
Pedi de aniversário pra minha madrinha uma consulta com minha médica, que já vinha pelo Whatsapp conversando comigo e tentando me acalmar. Ela me disse pra ir ao consultório que ela tentaria a retirada com um procedimento a vácuo. Não era garantido, mas ela sempre havia conseguido.

Ok.
Espera a menstruação vir, marca a consulta, chama a amiga pra dar força e vai. Minha gente… Que situação incômoda! Que desconforto!!! Mais de vinte minutos e nada. O danado não saía. Mulheres devem entender o que estava rolando… E eu pensava “Caramba!! Por que temos que passar por isso?!” Até que:

– Bru, chega. Não vou mais tentar. Você já tá sofrendo muito. Olha, vou marcar um encaixe de urgência pra você na clínica do SUS que eu atendo no ABC e lá uma doutora da minha confiança irá retirar por histeroscopia, que é o único jeito mesmo.

Morro de amor por essa médica. Sério.

Em dois dias lá estava eu, em uma clínica pública, gratuita e incrível da saúde da mulher. ❤ Fui atendida pela médica amiga da minha gineco, uma moça também jovem e fofa. Ela me levou pra sala e o procedimento foi feito. Claro que com incômodo, demorou aí uma meia hora tudo, eu estava num quarto gelado, com uns quatro, cinco alunos de residência que se revezavam nos aparelhos para tentar retirar.

– Bruna, vou colocar aqui o aparelho, tá? E você vai sentir um desconforto, tudo bem?

E começa a caça…

– Mais pra esquerda, olha! Vai, vai… Pegou? Acho que não. Cadê?
– Bruna, tudo bem aí?
– Não vou negar que já estive melhor.
– Pronto! Peguei.

E eu rezava pra estudante estar certa, porque a gastura e o mal estar estavam bem aflitivos, vamos assim dizer. E, caceta! Como pode um troço pequeno se perder num órgão do tamanho do meu punho?!

– Aqui o danado, Bruna! Quer jogar fora ou guardar de lembrança?

IMG_6283
Mirena e a cordinha maledetta

Guardei.

Guardei pra lembrar de tudo o que passei. Guardei pra lembrar que eu posso sim ser responsável pela minha fertilidade, lutar por ela e, lindamente, dividi-la com meu parceiro. Guardei porque eu o mostro sempre que possível para amigas e conhecidas. Guardei porque não tem como pensar “WTF?!” ao olhar pra ele. Guardei pra lembrar que aquilo ficou dentro de mim por pouco mais de três anos e, de quebra, ainda lembrar que durante 15 anos, por achar que não tinha outra saída, eu tive um tanto de substância estranha correndo no meu organismo.

Eu tirei o Mirena no dia 6 de outubro de 2016 e dois dias depois fiz 30 anos. Foi o meu presente de aniversário para o meu corpo.
Eu tirei o Mirena no dia 6 de outubro de 2016 e no meu primeiro ciclo eu já estava de coletor, pensando em plantar minha Lua.
Eu tirei o Mirena no dia 6 de outubro de 2016 e hoje, um ano depois, sigo MUITO feliz com meu organismo, são inúmeras as mudanças e melhorias que já pude reparar no meu corpo. Por exemplo músculos? Sim! Hahahaha \o/

Eu acho lindo quando sinto a ovulação, quando percebo a movimentação antes da menstruação e também quando o Thiago já reconhece alguns sintomas do meu ciclo, ou mesmo quando ele espia o aplicativo Maia (instalado no meu celular e no dele) e já vem cheio de argumentos pra cima de mim! =D

“Bruna, sua louca! Mas como vocês fazem?!”

Camisinha, minha gente. Camisinha. Camisinha com responsabilidade (e de graça no posto de saúde).
And so far, so good! 😉

Nós dois sabemos o que pode acontecer, a responsabilidade é compartilhada.
Ufa! Bem mais leve assim.

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2 comentários

  1. Menina, larguei o anticoncepcional em Janeiro e depois de quase 15 anos de hormônios na cabeça, meu corpo ficou doidinho…
    Passados 9 meses, ainda não tenho ciclos regulares, se é que posso dizer que tenho um ciclo.
    Médicos atrás de médicos, exames, mais exames… e nenhuma solução ainda.
    Endocrino e Gineco não têm outra solução para ovários policísticos além de hormônios… (that’s what they said… emoticon com olhinhos pra cima de novo)
    Enfim, estou na caminhada, aprendendo a interpretar o que meu corpo está mostrando nessa nova fase da minha vida…

    Curtido por 1 pessoa

    • Alê, vc já tentou investigar assim pensando mais no lance do feminino? É tão lindo isso que vc disse sobre aprender a interpretar o que o corpo mostra… ❤ É exatamente isso!!!

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